Na política baiana, a palavra “prioridade” costuma significar duas coisas: ou você já tem a vaga garantida, ou está avisando em alto e bom som que não pretende sair da mesa de negociação sem um prêmio de consolação — de preferência, com gabinete em Brasília.
Foi nesse clima de elegante firmeza que o deputado federal Márcio Marinho decidiu bater o pé: o Republicanos não abre mão de compor a chapa majoritária ao lado do ex-prefeito ACM Neto na disputa pelo governo da Bahia.
Em conversa com o jornal Tribuna da Bahia, Marinho fez questão de lembrar que seu partido não é desses que aparecem apenas quando sentem o cheiro da vitória no ar. Não, senhor. O Republicanos, segundo ele, está “caminhando há muito tempo” com Neto — contribuindo tanto na política quanto na gestão. Uma relação antiga, sólida, quase matrimonial. Daquelas que rendem direito à metade dos bens — ou pelo menos a uma vaga ao Senado.
Fidelidade premiada (ou quase isso)
A fala tem endereço certo. Em política, ninguém gosta de ver um recém-chegado sentar na cabeceira da mesa. E o recém-chegado da vez atende pelo nome de Angelo Coronel. Com sua chegada ao grupo, o tabuleiro mudou. E, como toda boa partida de xadrez baiano, as peças começaram a se olhar atravessado.
Marinho foi direto: a prioridade do Republicanos é indicar uma das vagas ao Senado. Simples assim. Conversas com ACM Neto já teriam sinalizado esse desejo. Mas, com a nova composição do grupo, “teremos que repensar o jogo”.
Repensar o jogo, no vocabulário político, significa algo entre “vamos negociar até o último minuto” e “não vamos sair de mãos abanando”.
A arte de não abrir mão
O ponto central da declaração é quase poético: o partido “não vai abrir mão de participar da chapa majoritária”. Não importa como o cenário se reorganize, quem chegue ou quem se sente mais perto do microfone. O Republicanos quer estar no retrato oficial da campanha — e, se possível, na urna também.
Há, claro, uma ironia estrutural nesse tipo de declaração. Em política, abrir mão é verbo raramente conjugado. Todos caminham juntos, todos são parceiros históricos, todos contribuíram decisivamente — mas as vagas são poucas e as cadeiras, disputadas a cotoveladas discretas.
No fim das contas, a discussão não é apenas sobre lealdade, mas sobre espaço. Em ano eleitoral, memória partidária vira ativo valioso. E fidelidade, quando bem lembrada, pode — quem sabe — virar mandato.
Na Bahia, o jogo está longe de terminar. Mas uma coisa é certa: ninguém quer ser coadjuvante na própria narrativa. E, como mostrou Márcio Marinho, quem chega primeiro na fila não pretende sair dela só porque a música mudou.


