A política brasileira nunca decepciona quando o assunto é roteiro improvável. No último domingo (15), um vereador do interior da Bahia mostrou que, além de discursos e votações, também domina técnicas de escalada urbana — ainda que sem muito sucesso.
O protagonista da vez é o parlamentar de Cabaceiras do Paraguaçu, conhecido como “Nem Nem de Augusto”, 37 anos, preso em Salvador sob suspeita de envolvimento em homicídios, tráfico de drogas e de chefiar uma facção criminosa. Sim, você leu certo: vereador e chefe de facção na mesma frase. A versatilidade do currículo impressiona.
🎭 Carnaval, amigos e… mandado de prisão
Segundo a Polícia Civil, o vereador estava foragido desde dezembro do ano passado. Foi localizado no bairro do Imbuí, em Salvador, onde passava o período carnavalesco na companhia de amigos e familiares. A ordem judicial, vale frisar, não tinha relação com a festa — embora o timing seja digno de alegoria.
A cena da prisão acrescenta um toque quase cinematográfico ao episódio: ao perceber a chegada dos policiais, o parlamentar tentou fugir pelo telhado do imóvel. Uma metáfora involuntária, talvez, sobre a tentativa de se manter “acima” dos problemas. Não funcionou.
Acusações graves, roteiro ainda mais pesado
De acordo com as investigações, ele é apontado como autor de pelo menos dois homicídios, além de suspeito de envolvimento com o tráfico de drogas e de liderar a facção conhecida como “BDM” na região.
Entre os casos atribuídos ao vereador está o homicídio de Josevaldo da Conceição, ocorrido em setembro de 2025, na zona rural de Governador Mangabeira. A vítima foi encontrada com ferimentos na cabeça às margens de uma estrada vicinal, ao lado da motocicleta.
Durante o cumprimento do mandado, outras pessoas que estavam no imóvel foram levadas à delegacia. Uma delas, num reflexo contemporâneo de desespero, decidiu danificar o próprio celular no momento da abordagem. A tecnologia, afinal, virou o novo cofre — e também o novo medo.
Política multitarefa
O episódio lança uma sombra incômoda sobre a política local. A ironia é inevitável: enquanto parte da população cobra mais segurança pública, um representante eleito é acusado de integrar justamente o problema.
A história reúne todos os elementos do drama brasileiro contemporâneo — poder, crime, fuga pelo telhado e celular destruído. Falta apenas descobrir como esse enredo termina.
No fim das contas, fica a pergunta que ecoa com certa sagacidade: quando o mandato vira salvo-conduto imaginário, quem fiscaliza o fiscal?


