Do Pico à Queda Livre: Cacau despenca 65% e crise expõe fragilidade do mercado global

O mercado internacional do cacau vive uma das reviravoltas mais dramáticas dos últimos anos. Depois de atingir patamares históricos de valorização, a amêndoa amarga agora uma desvalorização superior a 65% em menos de dois anos — um movimento que desencadeou protestos no Brasil e reacendeu o debate sobre importações e competitividade.
Da euforia ao tombo
Em maio de 2024, o cacau atingiu o impressionante pico de US$ 10.945,62 por tonelada na Bolsa de Nova York. Nesta semana, o valor recuou para US$ 3.761,26, acumulando uma queda de 65,6%.
A trajetória reflete uma mudança brusca na dinâmica global. O que antes era escassez agora é excedente. O ciclo de déficit produtivo, que sustentou preços elevados até meados de 2025, deu lugar a um cenário de superprodução.
O fim do ciclo de escassez
Dois gigantes do setor — Costa do Marfim e Gana — ampliaram estoques e ajudaram a pressionar as cotações para baixo. O resultado foi uma inversão de fluxo no mercado.
Segundo Maria Goretti Gomes, coordenadora de projetos da Faepa/Senar, o setor vive uma “inversão de fluxo”:
-
2025: oferta limitada e demanda aquecida.
-
2026: superávit produtivo e compradores mais retraídos.
Essa combinação — excesso de oferta e consumo global menos vigoroso — levou à rápida correção de preços.
Impacto direto no campo brasileiro
No Brasil, o reflexo foi imediato e severo.
A Federação da Agricultura e Pecuária da Bahia (Faeb) criticou o volume de importações de cacau africano, argumentando que o produto estrangeiro entra no país em um momento de preços já deprimidos, comprimindo ainda mais as margens do produtor nacional.
O descontentamento evoluiu para mobilizações em rodovias baianas, organizadas por sindicatos e trabalhadores rurais. Entre as principais reivindicações estão:
-
Suspensão ou revisão das importações
-
Investigação de supostos esquemas de cartel
-
Fim das isenções tributárias concedidas ao cacau importado
-
Garantia de isonomia comercial
Produtores afirmam que o cacau estrangeiro entra com vantagens fiscais que não são estendidas à produção nacional — um fator que agrava a crise em um momento de rentabilidade negativa.
Um mercado vulnerável
O episódio evidencia a vulnerabilidade estrutural do setor cacaueiro. Altamente dependente do mercado externo, o Brasil sofre os impactos de oscilações globais mesmo quando a produção doméstica não é a principal responsável pelo desequilíbrio.
O desafio agora é duplo:
-
Equilibrar competitividade interna e abertura comercial
-
Construir mecanismos de proteção contra ciclos extremos de preço
A pergunta que fica é: o setor está preparado para enfrentar novos ciclos de volatilidade?
Se o auge de 2024 trouxe euforia, 2026 impõe uma lição dura — no mercado de commodities, o que sobe rápido pode cair ainda mais rápido.

