Com provocação a BOLSONARO, ACADÊMICOS DE NITEROI leva trajetória de LULA à Sapucaí.
A primeira escola do Grupo Especial a atravessar a Marquês de Sapucaí neste domingo (15) não quis saber de meias-palavras. A Acadêmicos de Niterói abriu os trabalhos como quem abre um livro de História — só que com plumas, LED e 3,1 mil personagens devidamente ensaiados.
O enredo? Nada menos que “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”. Sim, a Avenida virou biografia ilustrada — e com trilha sonora.
Da infância nordestina ao camarote oficial
A narrativa começou em 1952, passou pela infância no Nordeste e seguiu pela clássica travessia rumo ao Sudeste, naquela que já se tornou uma das cenas mais revisitadas da política brasileira: a viagem de pau-de-arara entre Garanhuns (PE) e a periferia do Guarujá (SP).
Eurídice Ferreira de Mello, mãe de oito filhos, surgiu como matriarca épica — enfrentando “13 noites e 13 dias” de estrada. A simbologia, claro, não foi exatamente discreta. No Carnaval, até o número vira alegoria.
Enquanto isso, no presente histórico, o próprio homenageado acompanhava tudo do alto — no camarote da Prefeitura do Rio de Janeiro. Nada mais coerente: da carroceria improvisada ao espaço VIP institucional. Se isso não é arco narrativo, é o quê?
Samba, partido e palavra de ordem
O samba-enredo dispensou metáforas excessivamente sofisticadas quando o assunto era identidade política. O refrão ecoou o conhecido “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”, com direito a menção explícita ao número de urna do Partido dos Trabalhadores.
Sim, a Sapucaí entendeu o recado.
Janja também foi citada na composição, porque, em tempos contemporâneos, nenhuma narrativa presidencial está completa sem seu capítulo conjugal-midiático.
Entre 25 alas e cinco carros alegóricos, a escola organizou a trajetória do presidente como uma epopeia popular — com direito a operário, sindicalista, líder e símbolo. Uma espécie de minissérie da vida real, só que sem intervalo comercial.
E, claro, havia um antagonista
Porque toda narrativa precisa de contraste dramático, uma das alegorias trouxe referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Representado como um palhaço de expressão triste e espantada, vestido com trajes listrados que a dramaturgia costuma associar a presidiários, ele apareceu como o contraponto visual da epopeia trabalhista.
No Carnaval, a crítica raramente sussurra — ela desfila em carro alegórico.
Política na Avenida: surpresa zero
A abertura dos desfiles do Grupo Especial veio com forte tom político e biográfico. O que, convenhamos, não é exatamente uma novidade. A Sapucaí sempre foi palco de disputas simbólicas — às vezes mais honestas que certos debates televisivos.
A diferença é que, ali, pelo menos, todo mundo canta junto.
Entre confetes, bandeiras e refrões de arquibancada, a Acadêmicos de Niterói não apenas abriu o Carnaval — abriu também a temporada oficial de alegorias ideológicas. E fez isso com a convicção de quem sabe que, no Brasil, a política pode até ser polarizada, mas o espetáculo é sempre coletivo.




